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Postador Por Rembrandt Carvalho

Silvio Santos 86 anos: parentes e amigos contam histórias curiosas sobre o apresentador

Resumir a história de vida de Silvio Santos, a do camelô que se tornou um dos maiores comunicadores e empresários do país, é simplificar a trajetória de um homem que alcançou o sucesso através do trabalho. Sorte? Talvez! Suor? Com certeza! O carioca, que nasceu no boêmio bairro da Lapa, desde cedo conquistou a atenção do povo. Aos 14 anos, usava a voz pelo Centro do Rio para atrair a multidão e, assim, vender suas mercadorias.

— Silvio sempre foi determinado. Começou a trabalhar muito novo. Vendia capinha para título de eleitor nas ruas. Naquela época, o país voltava a ter eleições após um longo período e as pessoas estavam entusiasmadas. Ele foi um visionário. Posso dizer que, até hoje, vive para trabalhar — afirma Henrique Abravanel, de 

77 anos, irmão mais novo do dono do SBT.(Na Foto Silvio, aos 18 anos, quando serviu no Exército Foto: 17.05.2007 – Reprodução)


Exigente, Silvio acreditava que precisava vender produtos de melhor qualidade, algo que combinasse mais com sua condição de estudante de contabilidade. Trocou as capas por canetas, e soube como ninguém redigir o seu destino. No próximo dia 12, quando completa 85 anos, o comunicador pode celebrar com a certeza de que suas conquistas são mérito de seu esforço e persistência. Como Midas, transformou em ouro as oportunidades que apareceram pela frente. Uma delas, em especial, alternou sua vida: quando foi apreendido pelo chefe do rapa por estar vendendo bugigangas na rua. Percebendo a boa comunicação do garoto, o policial o encaminhou para fazer um teste de locutor na Rádio Guanabara. A vocação para falar com a massa recebeu nova função. Passou por diversas estações no Rio até que, numa viagem para São Paulo, fez um teste e foi contratado pela Rádio Nacional em 1954.
Gravação do programa Topa Tudo por Dinheiro. O apresentador caiu em um tanque cheio d`água
— Conheci Silvio quando ele não tinha dinheiro nem para pagar cachê (risos). Eu era um menino de 16 anos quando o vi pela primeira vez. Frequentava assiduamente o programa de rádio do Manoel de Nóbrega. Eu era office boy na época. Lembro o primeiro dia em que ele apareceu. Manoel apresentou que o havia contratado porque achava que o rapaz tinha futuro. Tive o privilégio de ver sua estreia — recorda Raul Gil, de 78 anos.

O apresentador, que hoje é funcionário do SBT, frisa:

— Aprendi muito com ele. Uma das coisas, por exemplo, foi pagar os meus impostos em dia. É o cara mais correto que já vi nesse país. Sempre explanou que queria dormir em paz sabendo que tinhas as contas acertadas. E já tirou muita gente da lona, do desespero, pagou tantos hospitais e enterros para colegas… Mas não gosta que falem disso.


Durante exibição de seu programa na Rede Globo, em 1962 Foto: Agência O Globo
Silvio Santos vem aí

O trabalho com Manoel de Nóbrega na rádio lhe rendeu um apelido curioso: Peru que Fala. O motivo? Nóbrega percebia a timidez do novato e aproveitava para fazer brincadeiras com ele no ar, deixando-o vermelho. Disposto a receber mais dinheiro para quitar uma dívida, o carioca se dividia em mil. Acumulava a função na Rádio Nacional com o trabalho em bar, assim como a venda de anúncios para uma revistinha criada por ele e, por fim, fazia shows em circos e praças públicas com as “Caravanas do Peru que Fala”, formada com outros artistas.

— A força de trabalho dele era fora do comum. Silvio trabalhava feito maluco. Ia até o fim em tudo o que começava. Isso é algo que eu admirava muito. Nós nos dávamos bem e nos tornamos amigos. Ele me chamou para cuidar dos artistas da caravana. No início da carreira, era tímido demais. Sempre foi um cara fechado, introvertido. Com o tempo é que ele foi se soltando — diz Luciano Callegari, de 78 anos, que, ao longo de 47, foi produtor e diretor do animador.


Silvio Santos, Euclides Quandt de Oliveira (Ministro das Comunicações) e Manoel de Nobrega durante encontro em 1976, ano em que o apresentador conquistou a concessão para ter sua TV Foto: Terceiro / Agência O Globo


As adversidades que apareciam pelo caminho desafiavam Silvio. Se o salário na rádio não era alto, o locutor recebeva dez vezes mais com os trabalhos que acumulava. Sua visão de homem de negócios não permitia que perdesse oportunidades. E arriscar era com ele mesmo. Foi num desses episódios de “tudo ou nada” que uma de suas maiores invenções se concretizou. Após uma transação malsucedida, Manoel de Nóbrega pediu ajuda a Silvio. Na ocasião, o pai de Carlos Alberto de Nóbrega havia feito uma sociedade com um alemão, que tivera a ideia de vender uma cesta de brinquedos. A pessoa pagava as prestações ao longo do ano e, no fim, recebia a encomenda. Nóbrega anunciava em seu programa. No total, mil cestas foram vendidas, mas seu sócio não tinha como quitar o combinado. Silvio entrou na jogada para tentar resolver o problema e viu que, se bem administrado, o negócio poderia dar certo. Assim nasceu o Baú da Felicidade. A virada empresarial casava com uma nova etapa da vida dele.

— Aí ele começou a receber dinheiro. Surgiu a possibilidade de fazer um programa na TV (“Vamos brincar de forca”, de 1961). Era inacreditável quando ele pisava no palco. Paulo de Grammont e Walter Foster, diretores da TV Paulista, perguntaram se ele se interessaria em fazer um programa aos domingos, algo que não existia até então. Silvio, quando está no palco, é infernal. O que está certo é genial, mas, se está errado, a culpa é nossa. Sempre o chamei de maluco e acho que ele sempre foi — diverte-se Callegari.


Luciano Callegari e Silvio Santos: amigos de longa data Foto: Arquivo pessoal

Em 1962, estreou o “Programa Silvio Santos”. Três anos mais tarde, a Globo comprou a TV Paulista. O apresentador seguiu no ar até 1976. Nesse tempo, o carioca já havia conquistado o Brasil. A fama nunca subiu à cabeça. É o que garante Florzira Natale, de 80 anos, carinhosamente chamada por Silvio de Mirna. Ela trabalhou como sua assistente nos primeiros anos do programa:

— Ele dava conselhos às moças. Éramos sete. Às vezes, subíamos juntos a Rua das Palmeiras (onde era a TV Paulista) e ele conversava comigo sobre a família. Respeitava muito as moças. Para a gente receber mais dinheiro, ele deixava as meninas trabalharem em outros lugares. Só não permitia que fôssemos ao Chacrinha, porque as mulheres ficavam com pouca roupa e moça de família não podia.

Na mesma proporção que sua popularidade aumentava, maior era o desejo de ter sua própria emissora. Em meados dos anos 70, ele conseguiu a concessão para ter seu canal e assim surgiu a TVS, que, anos após, se tornaria o SBT. Apesar de estar há mais de cinco décadas no ar, Silvio faz questão de manter uma vida reservada quando fica longe das câmeras.

Em 2001, a Tradição levou para a avenida a história de Silvio
Em 2001, a Tradição levou para a avenida a história de Silvio Santos

— Faz 15 anos que voltei para a Globo e não tenho contato com Silvio. Mas sou grato a ele porque me deu a possibilidade de fazer o programa “Jô Soares onze e meia”. Era um sonho meu. O convite (de ir para o SBT) me motivou a fazer o que faço até hoje. Só é impossível entrevistá-lo. Ele não dá entrevista para ninguém — afirma Jô Soares.

A Canal Extra fez algumas tentativas de conversar com o comunicador nos últimos meses para essa reportagem. Numa delas, na porta de Jassa, seu cabeleireiro e confidente, muito educado, o apresentador brincou: “Fala com o Nicanor (manobrista) que ele resolve tudo”.

Raul Gil endossa a fama de inatingível do Homem do Baú:

— Estou no SBT há cinco anos e só falei com ele uma vez.

Outro apresentador de TV, Gugu Liberato tem sua história profissional ligada à do dono da emissora paulista. Bem antes de seguir a carreira, no início da década de 70, ele trabalhou como auxiliar de escritório na produção do programa de Silvio.


Em 1988, Silvio chegou anunciar Gugu como o seu substituto no SBT Foto: Antonio Carlos Piccino / Agência O Globo

— Ele a vida toda foi muito duro e exigente. Sempre nos dizia que “televisão é como um avião, não pode errar. Se errar, o avião cai”. Não tinha moleza. Hoje, vejo que esse jeito tinha razão de ser. Quase ninguém entendia de TV e ele tinha que ensinar — conta Gugu, que vai além: — Costumo dizer que nunca conheci alguém com o raciocínio tão rápido. Inteligência, então, nem se fala. Aprendi com Silvio que “a maior malandragem da vida é ser honesto”.

O mito, na verdade, é um homem de gosto simples.

— Ele é um cara normal, que, na intimidade, gosta de curtir as filhas e os netos. A televisão é o brinquedo dele. Adora quebra-cabeça e Netflix. Gosta de ficar em casa… Só quando viaja para fora (ele tem uma residência em Orlando, nos Estados Unidos) é que ele consegue levar uma vida mais comum. Pode andar na rua e ir ao supermercado — revela Dory Abravanel, sobrinha do comunicador.

Silvio Santos posa com as seis filhas
Silvio Santos posa com as seis filhas Foto: Reprodução/Instagram / Reprodução/Instagram

Lásaro do Carmo Júnior, que foi, durante cerca de sete anos, presidente da Jequiti, 
empresa do Grupo Silvio Santos, guarda boas lembranças do ex-patrão:

— Ele é muito reservado. Quem fala que conversa com o Silvio é mentiroso. Cinco ou seis pessoas falam, no máximo. Quantas vezes alguém me dizia que era amigo dele e, quando eu perguntava, descobria que sequer se conheciam (risos). Graças a Deus, nossa relação foi boa. Como o grande empreendedor que é, tem personalidade forte. Você não lidera dez mil funcionários sendo Papai Noel.

Mas o lado humano sobressai. Quem o conhece garante.

— Independentemente de ele ser o patrão, Silvio é o cara mais humilde do SBT. Trata todos como um paizão. Se você tem um problema de saúde, ele procura o melhor médico. Se Deus premiasse alguém com a eternidade, eu queria que fosse Silvio — diz Liminha, assistente de palco, que antecipa como será as comemorações, apesar de o SBT não confirmar: — As filhas estão preparando uma surpresa para o aniversário de 85 anos, um programa especial com depoimentos de diversos apresentadores.
Quando está no exterior, o animador leva uma vida normal, bem simples. Seus looks chamam atenção

Quando está no exterior, o animador leva uma vida normal, bem simples. Seus looks chamam atenção Foto: Reprodução / Instagram / Reprodução/Instagram

Wagner Montes conheceu de perto a generosidade do ex-chefe. Em 1981, ele sofreu um acidente de triciclo e precisou amputar a perna direita.

— Ele ligou várias vezes para o hospital. A atendente não acreditava que era verdade. Quando Silvio disse quem era, ela retrucou: “E aqui é a Hebe Camargo” (risos). E desligou. Ele explanou com o meu pai: “Não se preocupe. Ele vai usar a prótese mais moderna do mundo. Pena que não posso dar de carne e osso”. Ele resolveu tudo — recorda-se Montes, que era funcionário do SBT na época.

Da série histórias engraçadas, o ator Tiago Abravanel guarda uma do avô famoso:

— Lembro de uma viagem que fizemos a Cancun, de navio. Eu tinha uns 6 anos. Ele comprou 12 camisas bem floridas. Meu avô é assim: quando gosta de uma coisa, gosta mesmo! Lá, o comentário era que Silvio Santos não tomava banho, estava todo dia com a mesma roupa.
Na comemoração de seus 82 anos, com o neto Tiago Abravanel

Na comemoração de seus 82 anos, com o neto Tiago Abravanel Foto: Reprodução/Instagram / Reprodução/Instagram

Em sua biografia, “A fantástica história de Silvio Santos”, do jornalista Arlindo Silva, o apresentador avisa: “Hoje sou um homem detido ao trabalho mais porque gosto, não pelo que o trabalho me dá. Pelo contrário, o trabalho desgasta, mas ele me dá grandes emoções e eu sou um homem que gosta de emoções. O público também gosta. Por isso consigo comunicar-me com tanta facilidade. É como se tivéssemos uma alma só”.

O público, com certeza, sente isso. Parabéns pelos seus 86 anos, Silvio!

Três mil pessoas por semana

Quem assiste à programação do SBT sabe muito bem a importância que o auditório tem em seus programas. Para se ter uma ideia, são três mil pessoas por semana que vão até a emissora. E o programa mais procurado, claro, é o de Silvio Santos. “Abrimos a agenda na segunda segunda-feira de cada mês. São 115 caravanistas que captam público para nós”, conta Mercia Garção, supervisora, que lembra um fato inusitado: “Uma vez, veio um homem vestido de mulher. Não mandamos embora (o público é exclusivamente feminino). Depois, ele tirou a “fantasia” e contou que o seu sonho era conhecer Silvio”. A caravanista Lea Thomazi, de Jundiaí, acredita ter uma responsabilidade grande: “Não é fácil, porque as meninas mais novinhas, às vezes, não aparecem. Temos um número certo de pessoas para levar. Meu telefone não para”. Lucia de Fátima Andrade começou como caravanista e hoje trabalha no SBT. “Nunca imaginei de estar na equipe do Silvio. Precisavam de uma pessoa na plateia. Comecei como frila e após me contrataram. Ele vai andando e cumprimentando todos. Jamais passa ao lado de um funcionário sem falar”, conta Lucia. O assistente de palco Gonçalo Roque conheceu Silvio ainda na época da Rádio Nacional. “Desde então, ele já tinha um jeitão carismático com o público. Como bom carioca, é simpático. A maioria das pessoas quer abraçá-lo. A gente explica que não pode, mas com carinho”, diz Roque.

Uma paixão arrebatadora há mais de 30 anos


Silvio e Iris: paixão que perdura Foto: Agência O Globo

O primeiro casamento de Silvio foi com Aparecida Honória Vieira, a Cidinha, que morreu vítima de câncer no aparelho digestivo em 1977. Com ela, o animador teve duas filhas: Cintia e Silvia. Em 1981, o amor deu uma segunda chance para o apresentador, que se casou com Iris Abravanel, sua atual mulher. A paixão foi arrebatadora. Roberto Manzoni, o Magrão, diretor de programação do SBT, conta: “Ele sempre foi e sempre será louco por ela. Eles se entendem muito bem. As vezes em que tive oportunidade de conversar com ele sobre a família, Silvio sempre demonstrou orgulho”. O amigo Callegari lembra: “Acho que até então ele não sabia o que era paixão. Sabe quando bate pele com pele, que a pessoa esquece tudo? Ele só falava dela”. O casal teve Daniela, Patrícia, Rebeca e Renata. Em Iris, Silvio achou um amor recíproco. “É impossível definir em apenas uma frase tudo que meu marido representa para mim. Senor é o grande amor da minha vida. Quanto mais o conheço, mais minha admiração e meu respeito crescem. Ele é o meu herói”, derrete-se Iris.

*Todas as entrevistas desta matéria foram concedidas ao jornal “Extra”.

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