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Postador Por Rembrandt Carvalho

Falta de ônibus adaptado impede cadeirante de chegar à universidade no RN

O sonho de obter uma graduação no ensino superior se tornou motivo de preocupação para o estudante Marcos Monteiro, 22, residente no município de Apodi (RN). Portador de distrofia muscular, ele é cadeirante, e não há nenhum transporte adaptado para levá-lo até o campus da UERN (Universidade do Estado do Rio Grande do Norte), localizado em Mossoró, a 80 km de distância de sua cidade.

As aulas no curso de Ciência da Computação começaram nesta semana, e Monteiro não conseguiu entrar em nenhum dos ônibus que fazem o transporte de estudantes entre as duas cidades. Ele faltou ao primeiro dia de aula e, nos outros dois, contou com a carona de um amigo, em um carro particular, para chegar à faculdade. O jovem mora na zona rural de Apodi, no sítio Santa Rosa, a 12km do centro, e o transporte da casa dele até o ponto de ônibus está sendo feito em um carro comum emprestado pela prefeitura.

As dificuldades de Marcos foram gravadas em um vídeo feito pela Associação de Deficientes Físicos de Apodi. Nele, é possível ver que a cadeira de rodas do jovem não entra nos corredores de ônibus da cidade. Tentaram até mesmo suspendê-lo em uma cadeira comum, de escritório, mas nem assim o espaço era suficiente.

Apesar da frustração, o estudante afirma que a falta de transporte adequado não será motivo para desistir de cursar a graduação, como fez no ano passado. "O sonho não é só meu, é dos meus pais também, porque serei o primeiro a ter curso superior na família, que está orgulhosa em eu ter sido aprovado novamente na UERN. A dificuldade com o transporte não vai diminuir minha vontade de aprender na universidade".

Marcos, que parou de andar aos 13 anos devido a uma doença genética que provoca a degeneração das células do músculo, conta que o sonho de entrar na universidade despertou durante um curso técnico de informática e de operador de computação. Para ir às aulas, em sua própria cidade, ele era levado no carro da família, mas agora, pela distância entre Apodi e Mossoró, não há como o pai dele, Francisco Carlos Monteiro, transportá-lo. 

"Meu pai me leva para todo lugar que preciso, porque na cidade não tem transporte com acessibilidade, mas agora fica complicado ele ir me levar todos os dias para Mossoró, porque ele trabalha", diz o estudante.

Divulgação/Associação dos Deficientes Físicos de Apodi
Marcos Monteiro ao lado de amigos e familiares.
Sem veículos adaptados em toda a região
O transporte de estudantes de Apodi para outros municípios é feito por meio de um convênio entre a prefeitura e a Aents (Associação de Estudantes de Nível Técnico e Superior). Sete ônibus levam cerca de 450 universitários de Apodi até as cidades de Mossoró e Caraúbas. Entretanto, nenhum dos veículos é adaptado para cadeirantes. A prefeitura faz o repasse mensal de R$ 30 mil para o transporte, e os estudantes entram com a contrapartida de R$ 60 para ter acesso ao serviço.

Segundo o presidente da Aents, Erison Gustavo Moreira, a associação fez uma pesquisa em Apodi e municípios vizinhos para contratar um ônibus com acessibilidade para transportar Marcos Monteiro, mas não encontrou veículo coletivo adaptado na região. Na avaliação de Moreira, é necessário que o transporte do estudante seja feito em um ônibus em vez de um carro particular, para que a inclusão social dele seja completa.

"Transportá-lo num veículo coletivo com acessibilidade é uma questão de humanização, pois ele deve ser tratado como os demais estudantes, com as mesmas oportunidades. É importante que Marcos tenha acesso a ônibus adaptado para ele já se sentir incluído no meio universitário desde o transporte para a universidade. A perseverança dele será exemplo para outros cadeirantes despertarem a vontade de fazer curso superior", destaca Moreira.

Segundo a Associação dos Deficientes de Apodi, um outro cadeirante da cidade enfrentou os mesmos problemas de transporte no início da década de 90, mas ele era colocado "nos braços" dentro do veículo. "A situação de Marcos é diferente devido ao peso dele, que torna inviável ele ser carregado nos braços para entrar no ônibus", observa a presidente da associação, Nemora Martins.

Ela reclama ainda que o município recebeu um ônibus adaptado para deficientes físicos por meio do programa "Caminhos da Escola", do governo federal, mas que o veículo foi modificado. Segundo Martins, o espaço reservado para deficientes físicos foi preenchido por cadeiras comuns, e o elevador para entrada de cadeirantes no veículo foi retirado.

"Não existe nenhuma acessibilidade para cadeirantes que precisam usar ônibus em Apodi. Nenhum ônibus da cidade e região tem adaptação para deficientes físicos, por isso é necessário que se contrate um carro pequeno para que seja garantido o direito dele de estudar. Estamos cobrando uma solução porque outros cadeirantes podem sentir vontade de fazer graduação na UERN, mas desistem devido aos problemas com o transporte e Marcos vai ser o exemplo dessa conquista", diz ela.

A associação vai solicitar que a prefeitura inclua a compra de um ônibus adaptado para cadeirantes na Lei Orçamentária Anual de 2018, pois outros estudantes estão concluindo ensino médio e pretendem prestar vestibular para ingressar no ensino superior. Um levantamento de dados será feito para descobrir o número de cadeirantes que residem em Apodi.

Promessa para o fim do mês
Nesta quinta-feira (6), Marcos Monteiro se reuniu com a prefeitura de Apodi, Associação de Deficientes Físicos de Apodi e Aents (Associação de Estudantes de Nível Técnico e Superior) para cobrar uma solução para o impasse. No encontro, ficou definido que a prefeitura fará a reforma no ônibus escolar que tinha adaptação para que o cadeirante possa ir de transporte coletivo para universidade. A prefeitura marcou uma nova reunião para o dia 28 deste mês para informar a data em que o ônibus estará pronto para transportar o estudante. Até lá, Marcos continuará contando com a carona de um amigo para ir a Mossoró.

Sobre a retirada da adaptação do ônibus municipal, a prefeitura disse que a modificação não foi feita pela atual gestão e não soube precisar quando ela ocorreu.

O município afirmou ainda que faz o transporte de nove crianças com deficiência, que são levadas de casa para escolas municipais nos períodos da manhã e da tarde, desde o início do ano. A prefeitura justificou que devido ao horário de utilização do veículo pelas crianças, não pode incluir Monteiro no veículo. 






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